segunda-feira, 27 de maio de 2013

Da Mangueira pro Sibipiruna: Nelson Antônio da Silva, com seu cavaquinho.



Por BATATA ROMANINI

 
Desponta, no dia 29 de outubro de 1911, a Luz Negra. Não aquela simbolizando a morte e seu entorno, tema característico e recorrente da obra desse ícone. Na gênese de bambas, o surgimento da Luz de uma pele Negra que mudaria para sempre a trajetória do samba. A Luz Negra que representa a voz rouca, o estilo único de tocar, a malandragem, as noites em serestas, a autêntica boemia. Falamos aqui de Nelson Cavaquinho. Ao mestre, com licença.

Filho de Maria Paula da Silva, lavadeira do convento de Santa Teresa. Filho de Brás Antônio da Silva, que tocava tuba na Polícia Militar. Sobrinho de Elvino, de quem o violino tentava acompanhar em um instrumento improvisado, montado com uma caixa de charuto e arames esticados. Dessa maneira a música entrou na vida de Nelson Antonio da Silva pra nunca mais sair.

Da infância na Lapa à adolescência na Gávea, onde conviveu com grandes chorões da época, a paixão pelo cavaquinho o fez observar os grandes tocarem e a treinar as artimanhas aprendidas com o olhar quando alguém lhe emprestava o instrumento. Assim, de maneira autodidata, desenvolveu sua marca: balançar as cordas de aço com apenas dois dedos. Seu novo e eterno batismo artístico se concluiu... Tornou-se Nelson Cavaquinho, músico respeitado e admirado graças ao choro “Queda”.

Forçado pelo pai da noiva se casou com Alice Ferreira Neves aos 20 anos, com quem gerou quatro filhos. Para conseguir manter a família passou, através da indicação de seu pai, a trabalhar na cavalaria da Polícia Militar. Sua função? Fazer rondas noturnas no Morro da Mangueira. A vida boêmia na verde-e-rosa permitiu que conhecesse figuras como Cartola e Carlos Cachaça e que se tornasse mais um poeta da Estação Primeira. Entregou-se ao samba e à vida noturna, ficava por dias sem retornar à sua casa, sem regressar ao trabalho. Punido com várias detenções por essa conduta, compôs “Entre a Cruz e a Espada” em um dos episódios de prisão.

Saiu da Polícia Militar, terminou seu casamento. Agora seu pecado era “passar noites em serestas, bebendo por aí, pela cidade”. Estava entregue de vez à boêmia e à pobreza. Passou a frequentar a Praça Tiradentes, onde conheceu Lígia, uma sem-teto que dormia no local. Em meio ao romance, Nelson chegou a tatuar o nome dela no ombro direito. A música "Tatuagem" faz menção a esse acontecimento: "O meu único fracasso/ Está na tatuagem do meu braço".

Com Cartola compôs a música “Devia Ser Condenada”. Única parceira dos dois, afinal, dias após a concepção, Cartola encontraria um sujeito em um bar na Mangueira se dizendo autor da música. Nelson a havia vendido, assim como vendeu tantas outras, em troca de dinheiro, de um prato de comida, de um pernoite em um quarto de hotel barato. Em diversas ocasiões utilizou suas canções como moeda de troca para sobreviver. Nas madrugadas, pela mesa dos bares, acompanhado de uma bebida, dava forma às suas criações (a maioria sem registro, pois não as escrevia, mantinha-as na memória). Era isso que movia o Nelson compositor. Nas palavras do mesmo: “Nunca fiz samba por encomenda, por isso jamais vou compor um samba-enredo. Acho horrível você ter de fazer aqueles lá-lá-lá e oba-oba obrigatórios na linha melódica das escolas de samba. Faço músicas para tirar as coisas de dentro do coração. E foi assim desde o dia em que fiz meu primeiro samba”.

Sua primeira composição registrada foi “Não Faça Vontade a Ela” por Alcides Gerardi em 1939, mas seu primeiro sucesso só foi acontecer com “Rugas”, gravado em 1946 por Ciro Monteiro. Na década de 50, optou por trocar o cavaquinho pelo violão e conheceu seu principal parceiro, Guilherme de Brito, com quem compôs vários de seus sucessos. A fama só veio na década de 1960 quando passou a se apresentar no Zicartola.

Foi apenas em 1970 que gravou seu primeiro disco. Em seu terceiro, de 1973, foi, pela primeira vez, a público tocando o instrumento que deu origem ao seu batismo de bamba. Nesse mesmo trabalho, Guilherme de Brito gravou, pela primeira vez, ao lado do amigo, suas mais importantes composições: “A Flor e o Espinho”, “Quando Eu Me Chamar Saudade”, “Pranto de Poeta”.

Quando já estava “no último degrau da vida”, o poeta gravou o disco-tributo “As Flores em Vida”, em que canta quatro faixas, sendo as demais interpretadas por Cristina Buarque, Chico Buarque, Paulinho da Viola, Beth Carvalho, João Bosco e Toquinho.

Na madrugada do dia 18 de fevereiro de 1986, aos 74 anos, poucos dias após a Mangueira vencer o carnaval, a morte, tão presente em suas composições, o encontrou. Um enfisema pulmonar apagara a Luz daquele de cor Negra.

Se o pranto em mangueira é tão diferente, no Sibipiruna não é diferente. Agora, Nelson Cavaquinho se torna um novo ramo. Cada nova folha crescida, uma canção a ser ouvida. Enquanto na árvore puder existir, Nelson Cavaquinho não se chamará saudade. Será eterno novamente!

 


Um comentário:

  1. segue programa feito pela tv cultura em homenagem a Nelson Cavaquinho
    http://www.youtube.com/watch?v=BqdpX6gccb4
    e outros dois programas feitos pela rádio cultura
    http://www.culturabrasil.com.br/generos/samba/nelson-cavaquinho-100-anos
    http://www.culturabrasil.com.br/especiais/centenario-cavaquinho-tres-sambas-para-nelson-4/centenario-cavaquinho-tres-sambas-para-nelson-3

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