segunda-feira, 27 de maio de 2013

Da Mangueira pro Sibipiruna: Nelson Antônio da Silva, com seu cavaquinho.



Por BATATA ROMANINI

 
Desponta, no dia 29 de outubro de 1911, a Luz Negra. Não aquela simbolizando a morte e seu entorno, tema característico e recorrente da obra desse ícone. Na gênese de bambas, o surgimento da Luz de uma pele Negra que mudaria para sempre a trajetória do samba. A Luz Negra que representa a voz rouca, o estilo único de tocar, a malandragem, as noites em serestas, a autêntica boemia. Falamos aqui de Nelson Cavaquinho. Ao mestre, com licença.

Filho de Maria Paula da Silva, lavadeira do convento de Santa Teresa. Filho de Brás Antônio da Silva, que tocava tuba na Polícia Militar. Sobrinho de Elvino, de quem o violino tentava acompanhar em um instrumento improvisado, montado com uma caixa de charuto e arames esticados. Dessa maneira a música entrou na vida de Nelson Antonio da Silva pra nunca mais sair.

Da infância na Lapa à adolescência na Gávea, onde conviveu com grandes chorões da época, a paixão pelo cavaquinho o fez observar os grandes tocarem e a treinar as artimanhas aprendidas com o olhar quando alguém lhe emprestava o instrumento. Assim, de maneira autodidata, desenvolveu sua marca: balançar as cordas de aço com apenas dois dedos. Seu novo e eterno batismo artístico se concluiu... Tornou-se Nelson Cavaquinho, músico respeitado e admirado graças ao choro “Queda”.

Forçado pelo pai da noiva se casou com Alice Ferreira Neves aos 20 anos, com quem gerou quatro filhos. Para conseguir manter a família passou, através da indicação de seu pai, a trabalhar na cavalaria da Polícia Militar. Sua função? Fazer rondas noturnas no Morro da Mangueira. A vida boêmia na verde-e-rosa permitiu que conhecesse figuras como Cartola e Carlos Cachaça e que se tornasse mais um poeta da Estação Primeira. Entregou-se ao samba e à vida noturna, ficava por dias sem retornar à sua casa, sem regressar ao trabalho. Punido com várias detenções por essa conduta, compôs “Entre a Cruz e a Espada” em um dos episódios de prisão.

Saiu da Polícia Militar, terminou seu casamento. Agora seu pecado era “passar noites em serestas, bebendo por aí, pela cidade”. Estava entregue de vez à boêmia e à pobreza. Passou a frequentar a Praça Tiradentes, onde conheceu Lígia, uma sem-teto que dormia no local. Em meio ao romance, Nelson chegou a tatuar o nome dela no ombro direito. A música "Tatuagem" faz menção a esse acontecimento: "O meu único fracasso/ Está na tatuagem do meu braço".

Com Cartola compôs a música “Devia Ser Condenada”. Única parceira dos dois, afinal, dias após a concepção, Cartola encontraria um sujeito em um bar na Mangueira se dizendo autor da música. Nelson a havia vendido, assim como vendeu tantas outras, em troca de dinheiro, de um prato de comida, de um pernoite em um quarto de hotel barato. Em diversas ocasiões utilizou suas canções como moeda de troca para sobreviver. Nas madrugadas, pela mesa dos bares, acompanhado de uma bebida, dava forma às suas criações (a maioria sem registro, pois não as escrevia, mantinha-as na memória). Era isso que movia o Nelson compositor. Nas palavras do mesmo: “Nunca fiz samba por encomenda, por isso jamais vou compor um samba-enredo. Acho horrível você ter de fazer aqueles lá-lá-lá e oba-oba obrigatórios na linha melódica das escolas de samba. Faço músicas para tirar as coisas de dentro do coração. E foi assim desde o dia em que fiz meu primeiro samba”.

Sua primeira composição registrada foi “Não Faça Vontade a Ela” por Alcides Gerardi em 1939, mas seu primeiro sucesso só foi acontecer com “Rugas”, gravado em 1946 por Ciro Monteiro. Na década de 50, optou por trocar o cavaquinho pelo violão e conheceu seu principal parceiro, Guilherme de Brito, com quem compôs vários de seus sucessos. A fama só veio na década de 1960 quando passou a se apresentar no Zicartola.

Foi apenas em 1970 que gravou seu primeiro disco. Em seu terceiro, de 1973, foi, pela primeira vez, a público tocando o instrumento que deu origem ao seu batismo de bamba. Nesse mesmo trabalho, Guilherme de Brito gravou, pela primeira vez, ao lado do amigo, suas mais importantes composições: “A Flor e o Espinho”, “Quando Eu Me Chamar Saudade”, “Pranto de Poeta”.

Quando já estava “no último degrau da vida”, o poeta gravou o disco-tributo “As Flores em Vida”, em que canta quatro faixas, sendo as demais interpretadas por Cristina Buarque, Chico Buarque, Paulinho da Viola, Beth Carvalho, João Bosco e Toquinho.

Na madrugada do dia 18 de fevereiro de 1986, aos 74 anos, poucos dias após a Mangueira vencer o carnaval, a morte, tão presente em suas composições, o encontrou. Um enfisema pulmonar apagara a Luz daquele de cor Negra.

Se o pranto em mangueira é tão diferente, no Sibipiruna não é diferente. Agora, Nelson Cavaquinho se torna um novo ramo. Cada nova folha crescida, uma canção a ser ouvida. Enquanto na árvore puder existir, Nelson Cavaquinho não se chamará saudade. Será eterno novamente!

 


quinta-feira, 2 de maio de 2013

AO CIENTISTA POETA.


Paulo Emilio Vanzolini nos deixou essa semana, o cientista reconhecido se foi, um defensor da pesquisa acadêmica de qualidade nos deixou. Mas para além da ciência perdemos um grande poeta, sambista, que sem estudar música se tornou um músico.
Nascido em São Paulo, passou parte da infância e juventude no Rio de Janeiro, onde se apaixonou pelo samba. Samba que o consagrou e consagrou grandes nomes da música popular brasileira como Noite Ilustrada um dos maiores interpretes do samba brasileiro.
O poeta cresceu, tornou-se cientista respeitado além de ajudar a criar a FAPESP, foi diretor do Museu de Zoologia da USP, e doou todo o seu acervo pessoal para a biblioteca da mesmo Universidade.
E foi andando pelas ruas da cidade de São Paulo que veio a principal inspiração, as ruas, praças, bares, foram parte da temática dos sambas do poeta que retratou a boemia, amores perdidos e tragédias que entristecem nossos corações, mas também compôs a alegria e os prazeres que o samba nos traz.
Hoje a Praça Clóvis esta cheia, a nossa Ronda nos fez chegar ao Sibipiruna trazendo o Cravo Branco na mão, cantando o Samba Erudito ou não, esperando a Capoeira do Arnaldo, para homenagear o cientista poeta,então é hora de levantar a poeira e dar a volta por cima como dizia o poeta cientista, Paulo Vanzolini MUITO OBRIGADO.

quarta-feira, 24 de abril de 2013

São Pixinguinha

 





Pixinguinha (1897 - 1973)

                                                                                                                                     por André Santos 

Nascido no Rio de Janeiro em 23 de abril de 1897, data em que é comemorado o dia de São Jorge, Alfredo da Rocha Vianna Filho foi um dos oito filhos de Alfredo da Rocha Vianna e Raimunda Maria da Conceição. As reuniões de chorões que o pai Alfredo, flautista, fazia em sua casa no bairro do Catumbi, Rio de Janeiro, encantava a criançada, tanto que a maior parte dos filhos seguiu a paixão do pai, inclusive Alfredo filho, que se tornou Pixinguinha, um dos maiores músicos brasileiros da história, exímio flautista, saxofonista, compositor e arranjador de choros, sambas e valsas.  

Pizindim foi o primeiro apelido do garoto, caçula entre oito irmãos. Mais tarde, após o menino contrair Bexiga na época da epidemia, o apelido modificou-se para Bexiguinha e depois Pexinguinha, terminando por ficar conhecido como Pixinguinha. Aos onze anos o menino começou a aprender música com os irmãos mais velhos tocando cavaquinho. Logo o garoto se destacou entre os demais. Aos doze anos compôs seu primeiro choro, Lata de leite, homenagem aos chorões que, ao voltarem da boemia, bebiam os leites já deixados nas portas das residências pela manhã.

Pixinguinha aprendeu a tocar flauta com o professor Irineu de Almeida e aos 14 anos já participava de ranchos e sociedades carnavalescas. Nessa época, seu irmão mais velho, conhecido como China, lhe arranjou o primeiro emprego como músico, tocando em cabarés na Lapa. Com o sucesso na noite, três anos depois, em 1914, Pixinguinha foi convidado a trabalhar na Orquestra do Teatro Rio Branco como flautista. Nesses anos, o músico também tomava parte nas famosas reuniões de sambistas e chorões na casa da Tia Ciata, tido como o berço do samba carioca. Ali, participou do nascimento do primeiro samba gravado, Pelo telefone, estrondoso sucesso do carnaval de 1917. Em 1919, por sua vez, Pixinguinha emplacou seu primeiro sucesso do festejo com Já te digo, tornando-se figura bastante conhecida da música da cidade.

No início da década de 20 teve grande sucesso o grupo “Os oito batutas”, formado por Pixinguinha para tocar na sala de espera do Cinema Palais, templo da elite carioca da época. O espaço, que antes era dedicado a ritmos estrangeiros como polca, mazurcas e xotes, recebia pela primeira vez um repertório de música nacional, com os choros e sambas de Pixinguinha, Donga e companhia. Após a boa recepção da temporada de estreia, o grupo excursionou por todo o Brasil com grande destaque e adicionou ao seu repertorio “emboladas”, “cocos” e “desafios”. A flauta de Pixinguinha era constantemente elogiada pela crítica, por onde passava o grupo.

Em 1922 os Oito Batutas realizaram uma temporada em Paris com enorme sucesso, para desapontamento da crítica racista no Brasil, que não deixou de desferir seus preconceitos pelo fato de oito negros estarem representando a música brasileira no exterior. A temporada que seria de três meses, durou o dobro de tempo, tamanho o sucesso do grupo. Ao voltarem para o Brasil, os Oito Batutas ainda realizaram turnê pela Argentina antes do grupo se desfazer. Pixinguinha tornou-se então maestro da Orquestra da Companhia Negra de Revistas, famoso teatro de revista da época, que contava, entre outras personalidades negras, com o jovem ator Grande Otelo.

Foi no Teatro de Revistas que Pixinguinha conheceu aquela que seria sua esposa e companheira desde 1927, ano do casamento, até o final de sua vida. Albertina da Rocha, a Betty, era a estrela da Companhia Negra de Revista e com Pixinguinha teve um filho adotivo, chamado Alfredo da Rocha Vianna Neto, conhecido como Alfredinho.

Em 1930 Pixinguinha tornou-se maestro exclusivo da maior gravadora da época, a RCA Victor, e lá orquestrou seu maior sucesso, Carinhoso, música que o consagraria em definitivo como um dos maiores compositores da nossa música. Com o Grupo da Velha Guarda o flautista orquestrou e gravou com os maiores cantores da época. De Ismael Silva a Carmen Mirando, de Noel Rosa a Carlos Galhardo.

Na década de 40, Pixinguinha ficou impossibilitado de tocar flauta e adotou o saxofone como instrumento. Neste período, formou dupla com o flautista Benedito Lacerda. Os contrapontos que o sax de Pixinguinha fazia à flauta de Lacerda tornaram-se famosos e consagrados na história da MPB. O mestre mudava de instrumento, mas sua habilidade e sensibilidade musical ainda eram as mesmas. Acompanhados pelo Grupo da Velha Guarda, em 1954 a dupla tocou no Parque do Ibirapuera por ocasião da comemoração do quarto centenário da cidade de São Paulo, quando Pixinguinha recebeu uma homenagem da comissão do evento.

Ao longo da década de 60 as homenagens ao mestre só iriam aumentar, entre medalhas, prêmios e shows. Dentre os quarenta troféus e prêmios, destacam-se dois Discos de Ouro, o Jubileu de Prata da Rádio Roquete Pinto, a Ordem Comendador do Clube de Jazz e Bossa e o Diploma da Ordem do Mérito do Trabalho, recebido das mãos do presidente da república. Em 1968 Pixinguinha gravaria ao lado dos amigos Clementina de Jesus e João da Baiana um dos mais sublimes e preciosos documentos da nossa música popular, o LP Gente de Antiga, composto de sambas, choros, batucadas, corimas e partido-alto.

Em 17 de fevereiro de 1973 Pixinguinha faleceu dentro da igreja Nossa Senhora da Paz, onde estava para batizar o filho de um amigo. Foi enterrado no dia seguinte, no cemitério de Inhaúma, Rio de Janeiro, ao lado de sua mulher, que falecera um ano antes.  No ano seguinte, a Escola de Samba Portela desfilava em homenagem ao mestre, tornando-se vice-campã do carnaval carioca e imortalizando mais um samba-enredo que é lembrado nas rodas de samba pelo Brasil:

"E ele que era um poema de ternura e paz
fez um buque que não se esquece mais
de rosas musicias"

Agora, em maio de 2013, a roda de samba será formada mais uma vez em frente à Sibipiruna, que vai balançar ao som dos choros e sambas deste pioneiro e ilustre músico que soube ser bem brasileiro em uma época em que bonito era imitar estrangeiro. Pixinguinha foi o mestre maior que abriu caminho para que todos os sambistas e chorões pudessem cantar em roda e desfilar no morro, no asfalto ou na avenida. A você Maestro e Mestre Alfredo da Rocha Vianna Filho, a nossa homenagem dia 5 de maio de 2013.    


Frases sobre Pixinguinha:
Vinícius de Moraes
“Pixinguinha pra mim continua sendo o maior de todos os músicos populares brasileiros”.

“Pixinguinha é o melhor ser humano que eu conheço. E olha que o que eu conheço de gente não é fácil!”.

Fernando Faro
“Pixinguinha sempre foi admirado, respeitado e querido”.

Tom Jobim
“Você sabe que o Pixinguinha morreu de repente aqui na Nossa Senhora da Paz, né. Ele foi a igreja e morreu na igreja. É um santo mesmo.”   

Vídeos:

 http://www.youtube.com/watch?v=b_Bi5p_Q8ak

 http://www.youtube.com/watch?v=fhqAVEEezAw
 

segunda-feira, 1 de abril de 2013


Essa tal criatura do samba.


Gabi e Souza.
Foto: Maíra Sampaio e Douglas Darzo 

Afilhada musical de Cartola, primeira mulher a integrar a ala de compositores da Mangueira, exímia compositora de sambas de terreiro, de protesto e, claro, dos amores não correspondidos, autora do samba que ficou conhecido como “hino do pagode” e madrinha de boa parte dos pagodeiros de 1990, Leci Brandão é a próxima homenageada do Sibipiruna.
De origem humilde, teve a necessidade de trabalhar desde muito nova. A filha de Dona Leci foi operária, telefonista, carregou marmita e só conseguiu um cargo com remuneração maior após ficar conhecida por participar do programa “A grande chance”, no qual foi considerada a melhor compositora da noite.
Negra e pobre - o que não se configura, necessariamente, como um obstáculo no mundo do samba -, é o fato de ser “mulher de fibra” e de “por a boca no mundo e fazer um discurso profundo” o que caracteriza, sobretudo, sua trajetória pelo mundo do samba e para além dele. 
Nascida em Madureira, mas “verde e rosa de coração”, Leci Brandão adentra no tradicionalíssimo mundo do samba carioca em 1971, quando, convidada por Zé Branco, realiza um ‘estagio’ na ala de compositores da Mangueira. Em 1972 já desfilava na escola como sendo a primeira mulher a integrar esta ala e em 74 concorria em sua primeira final de samba-enredo. Fato este que se repetiu por mais cinco vezes, tornando-se “hexa-campeã de vice-campeonatos”. Infelizmente nunca conseguiu ver sua escola desfilar com um samba de sua autoria.
 A cantora, antes, se apresentou em festivais estudantis do final dos anos 60 e no famoso Teatro Opinião. Neste contexto de resistência à ditadura militar e de uma arte engajada, suas composições, cujo tema era seu cotidiano, ganham o gosto dos críticos: sofrimento, luta e condição subalterna  transformam-se em gritantes canções.
Como compositora contou, protestou, cantou e denunciou a Dona de casa, o Bagulho do amante, a Maria de um só João,o Negro zumbi, a Mistura da raça. Além das musicas destinadas à defesa dos homossexuais como Questão de gosto, Ombro-amigo, Chantagem; não se esquecendo de clássicos como Menor abandonado, Deixa, deixa e Zé do caroço.
Ao receber “sugestões” para abandonar o repertório muito contestador que daria corpo ao disco a ser lançado em 1981 pela multinacional Poligram - dentre elas estariam Zé do caroço e Deixa,deixa – Leci pede demissão da gravadora.  Não se rendendo a “essa gente negligente, quase sempre indiferente à nossa canção” a cantora vive basicamente de seus shows durante cinco anos.  Mas como a “força da dureza não cala o cantor” Leci volta a gravar em 1985, quando Zé do Caroço se consagra, sendo regravado, ainda, nos anos 90 pelo Art Popular e no início dos anos 2000 por Revelação, Seu Jorge e Mariana Aydar.
Esse segundo momento de seu retorno aos discos é também um momento em que Leci passa a priorizar e/ou ser priorizada por São Paulo. Como ela mesma diz, é São Paulo quem a consagra. É a emergência dos grupos de pagodes – que se inicia com o boom do Raça Negra – que restitui o samba aos holofotes em finais de 80. São as parcerias e regravações dos pagodeiros de 90 – Só preto, Sem Compromisso, Sensação, Art Popular, É d+, Pique Novo, os Morenos entre outros - que trazem Leci de volta à mídia, agora, como madrinha e sambista respeitada.
Sem arrogância e problematizando o preconceito, desculpa-se com o poeta, mas defende o samba paulista da Barra Funda, do Bexiga e da Nenê. Afasta-se de críticas maldosas e é humilde ao reconhecer os ganhos que os sambistas tiveram com a chegada dos grupos de pagode dos anos 90: desde melhores condições de trabalho – transporte, camarim, estrutura de som e luz – até o retorno “dos velhinhos” do samba ao rádio e mesmo à mídia – não só ela, mas também Jorge Aragão, Zeca Pagodinho e Almir Guineto são bons exemplos disso. “O que é isso meu amor venha me dizer: Isso é fundo de quintal é pagode pra valer”.
          É assim nossa musa, vivendo e cantando as contradições que alimentam a tradição e a modernidade, o samba e o mundo. Leci Brandão faz da "vergonha, loucura, abre e escancara a verdade, nua sem ser preconceito". No domingo, deixemos a vergonha de lado. Amemos " essa tal criatura que envergonhou a cidade"!





domingo, 24 de fevereiro de 2013

Jovelina: PÉROLA NEGRA ...





Jovelina Pérola Negra é um típico exemplo de como o talento e a insistência conseguiu superar o preconceito e a ignorância.  Numa sociedade machista, ainda marcada pela segregação social e racial Jovelina, negra suburbana de Belford Roxo (Baixada Fluminense), conseguiu alcançar o auge artístico sem abrir mão de suas origens, cantando seu povo e sua história.
Assim como tantos outros sambistas, e diferentemente de outras cantoras de classes sociais menos desprivilegiadas, Perola Negra, até alcançar a fama, teve uma vida simples e humilde, trabalhando de empregada doméstica, lavadeira e vendedora. Nesta fase integrou a ala das Baianas da Império Serrano.
Mas foi nas rodas de pagode, de um novo movimento de samba que passava a dominar o subúrbio do Rio de Janeiro, que Jovelina se destacará. Foi a partir das Rodas de Samba do Cacique de Ramos, dos Pagodes que introduziam uma nova sonoridade, sem perder a essência rítmica e melódica do passado, que Jovelina passa a se destacar como grande cantora, partideira e versadora. Dona de uma voz potente e invejável, Jovelina fazia muito malandro pensar duas vezes antes de disputar um verso: “na lei do pagode só versa quem pode quem sabe somar e não subtrair”.
Jovelina passa a ser reconhecida pela grande mídia em 1985, ao participar de uma coletânea (Raça Brasileira), que tinha o propósito de lançar novos nomes do samba (Zeca Pagodinho e Mauro Diniz). Até 1998, ano de seu falecimento, Pérola Negra colecionou inúmeros sucessos, se tornando uma das principais vozes do Samba da época. Dentre estes, dois sambas foram consagrados, se tornando essenciais em qualquer “roda de malandro”: Bagaço da Laranja, Sorriso Aberto.
Este último samba, em particular, é o que melhor retrata a vida de Jovelina. Apesar de todos os preconceitos vividos em sua vida, impõe-se a necessidade de manter firma (balança mas não cai), com sorriso aberto, tendo o samba pra nos confortar, mas sem perder o senso crítico, e o desejo de mudança, pra nivelar a vida em auto astral.
Nada mais justo que homenageá-la. Num mês marcado pela intensificação das reflexões sobre  o papel da mulher nesta sociedade (que jamais deve-se resumir apenas a este mês), o Projeto de Samba Sibipiruna tem a honra cantar Jovelina.
O Convite Está Feito: dia 03 de março de 2013, a partir das 15 horas, no Bar Esquina 108 (Julia Leite de Barros). É só chegar ...






segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Um pouco da história do samba-enredo carioca







Rio de Janeiro, início do século XX. No princípio, era o samba. E o carnaval. Um, amaxixado, de Donga, Sinhô, Pixinguinha, Heitor dos Prazeres, João da Baiana e tantos outros bambas. O outro, com seus Blocos, Ranchos, Sociedades...
No fim da década de 20, vieram as primeiras escolas de samba, com seu cortejo que necessitava de um ritmo mais apropriado do que o usual, geralmente ouvido nos blocos, pra se desfilar cantando e dançando. Ismael Silva disse: “o estilo não dava pra andar. (...) O samba era assim: tan tantan tan tan tantan. Não dava. Como é que um bloco ia andar assim na rua? Aí, a gente começou a fazer um samba assim: bum bum paticumbumprugurundum”. E foi ao som deste ritmo mais “andável” (na falta de uma palavra melhor!) que nasceu o samba-enredo.
                As escolas se apresentavam na Praça Onze e em visitas a suas coirmãs, e já existiam competições entre sambistas, mas começaram a ganhar destaque ao despertar interesse da imprensa. Em 1932, o jornal Mundo Sportivo promoveu um concurso entre as escolas, por sugestão de seu diretor e proprietário, Mário Filho. Em 1934, as escolas de samba passam a fazer parte do carnaval oficial da cidade, recebendo subvenção solicitada pela União das Escolas de Samba, entidade representativa das mesmas - fundada neste mesmo ano.
Em suas primeiras aparições, o que viria a ser o samba-enredo se parecia com o que se vê nos sambas de partido alto: o povo ia cantando em coro a primeira parte e na segunda parte havia improvisação, os compositores “repenteando” na avenida. Geralmente, apresentava-se mais de um samba, de autoria coletiva, sem a menor obrigatoriedade de atrelar-se a um tema. Por isso, sequer tinha este nome, samba-enredo.
                Apontar o primeiro samba relacionado a um enredo é uma dura missão, a discussão é polêmica Há vários exemplos ao longo da década de 30 que relacionaram, direta ou indiretamente, a música ao tema apresentado: em 1933 temos Homenagem”, de Carlos Cachaça, da Mangueira e “O mundo do samba”, de Leandro Chagas, da Unidos da Tijuca; “Teste ao samba”, de Paulo da Portela, possivelmente apresentado em 1934; “Paz universal”, de Silas de Oliveira e Mano Décio da Viola, cantado pelo Império Serrano em 1946. Silas de Oliveira disse ter sido este o primeiro samba composto especialmente para um enredo pré-estabelecido, uma vez que outras escolas, apesar de terem sambas relacionados a seu enredo, desfilavam com seus sambas de terreiro. O certo é que esta relação samba e enredo se consolidou no fim da década de 40, e passa a ser oficial no regulamento de 1952.
O regulamento dos desfiles também orientava a feitura do samba-enredo. Desde 1946 havia perdido seu caráter improvisado, e apesar de estar presente já nos primeiros desfiles, a temática nacional passa a ser obrigatória no regulamento da prefeitura em 1947.  Essa obrigatoriedade do caráter nacional parece ter acontecido primeiro nas próprias escolas, cuja entidade representativa já em 1939 colocou em seu regimento a proibição de “histórias internacionais em sonhos ou imaginação”.
Na década de 50 passou a ser comum um tipo de samba-enredo que ficou conhecido como lençol: discorria sobre um tema histórico com riqueza de detalhes, com datas e nomes completos e tinha como característica básica sua extensão, alguns apresentando 45 versos. O autor que mais se destacou neste estilo foi Silas de Oliveira, do Império Serrano, apontado por muitos como fixador deste modelo. Alguns exemplos clássicos do estilo: “Sessenta e um anos de República” (1951), “Aquarela brasileira” (1964), “Cinco bailes da história do Rio” (1965), do Império Serrano; “Epopeia do samba” (1955) e “Chica  da Silva” (1955), ambos do Salgueiro. Este modelo perdurou pelas décadas de 50 e 60.
Na década de 60 iniciou-se um processo que atingiu paulatinamente todas as escolas: ganha voz e espaço a figura do carnavalesco, geralmente um elementos extra-comunidade, fato que mudou a concepção estética do desfile, transformou seu aspecto plástico. Como era de se esperar, a música oficial da festa também acompanhou estas mudanças.
Foi através da influência desse elemento estranho à comunidade que a temática negra ganhou espaço no cenário das escolas. Fernando Pamplona, artista plástico convidado pelo Salgueiro, apresenta uma sequência de desfiles que retoma a história do negro, com “Zumbi dos Palmares” (1960), “Chica da Silva” (1963) e “Chico Rei” (1964).
Seguindo a trilha de Fernando Pamplona, seu discípulo Joãosinho Trinta inaugurou, no carnaval de 1974, uma prática que veio a ser incorporada ao samba-enredo ao longo do tempo: as temáticas oníricas. O enredo era: “O Rei de França na Ilha de Assombração”, contando algumas lendas do Maranhão e o sonho de Luís XIII de França que imaginou como seriam as terras a serem invadidas. E o Salgueiro sagrou-se campeão com os delírios de João. No ano seguinte, Joãosinho levaria o Salgueiro mais uma vez ao campeonato, com o enredo “O segredo das minas do Rei Salomão”, e com ele introduziu um costume execrado por muitos: a montagem do samba-enredo a partir da junção de partes de sambas diferentes. O samba costumava ser escolhido pela preferência da escola, principalmente por suas pastoras, mas ao longo do tempo, sua escolha passou a ser feita através de concursos internos.
Até então, existia um consenso sobre quais seriam as maiores escolas de samba: Mangueira, Portela, Império Serrano e Salgueiro, conhecidas como superescolas, pois estavam sempre entre as primeiras colocadas. E é mais uma vez Joãosinho Trinta que modifica o cenário: em 1976, traz para este grupo seleto uma escola considerada média, a Beija-flor de Nilópolis. Seu enredo “Sonhar com rei dá leão” falava sobre o jogo do bicho, mais uma inovação temática.
O jogo do bicho já tinha uma relação de mecenato com as escolas de samba, mas esta se estreita neste período. Isto, somado junto à ação do carnavalesco, contribuiu para uma mudança de foco do carnaval, trazendo para o desfile características de show business, como por exemplo, a crescente grandiosidade e a verticalização dos carros alegóricos.
Junto ao processo de consolidação do mercado de bens culturais, iniciado na década de 60 no Brasil, as escolas de samba começaram a ter um público mais amplo, ganhando destaque na programação turística do Rio de Janeiro, com ampla cobertura da imprensa escrita e televisiva. Este crescimento também fez com que cada vez mais houvesse pressão por parte das escolas pela construção de um espaço exclusivo para o desfile, que de tempos em tempos mudava de endereço.
O samba-enredo não era um produto de grande destaque na indústria fonográfica. Houve gravações eventuais, geralmente sambas das quatro grandes (Mangueira, Portela, Império Serrano e Salgueiro) ou discos temáticos de uma escola, até 1968. Este ano marcou o surgimento de registros mais organizados de sambas-enredo: o primeiro, não comercial, feito pelo Museu da Imagem e do Som, com os sambas das escolas participantes do primeiro grupo; o segundo, comercial, feito pela gravadora DiscNews, gravado ao vivo na quadra das escolas, intitulado “Festival de sambas Vol I" Mas a chancela oficial das escolas só aparece em 1970, quando são lançados pelo selo AESEG, associação representativa das mesmas, os discos do primeiro e do segundo grupos, pela gravadora Caravelle. O interessante é que neste ano também houve o lançamento de “Festival de sambas Vol. III”, e só ouvindo os três discos era possível compor o panorama dos sambas daquele carnaval. Deste momento em diante, o LP dos sambas-enredo foi um dos mais tocados nas emissoras de rádio e um dos mais vendidos no Brasil.
Isto repercutiu na maneira de fazer o samba-enredo, acompanhando a evolução dos desfiles de uma ordem artesanal pra uma industrial. Curiosamente, foi neste momento que algumas escolas acabaram retomando a forma mais simples e original do samba-enredo. Isto pode ser visto, por exemplo, em “Festa para um rei negro” (Salgueiro – 1971), que tem forma A /B (refrão/estrofe), rompendo com a tradição dos sambas tipo lençol, estilo problemático para divulgação radiofônica por seu caráter longo.
Ao longo da década de oitenta, a venda dos discos de samba-enredo ultrapassava facilmente a marca de um milhão de cópias, mas a partir de 1993, as vendas começaram a cair. Neste período consolidaram-se várias características musicais que podemos ver até hoje no samba-enredo: a aceleração do andamento, a marcialização do aspecto rítmico, o aparecimento de harmonias mais sofisticadas, mas o aspecto que mais chama a atenção é o da forma. O estilo lençol deu lugar a uma forma quase padronizada, recorrentemente A/B/C/D ou A/B/C/D/E, ordenada de forma cíclica. E apesar de ainda termos hoje sambas lindos e memoráveis, não dá pra não notar a semelhança entre vários deles...
É certo que a escola de samba e o samba-enredo hoje possuem um caráter industrial, mas também é certo que este processo não ocorreu sem a reflexão das próprias escolas sobre ele. Já foi cantado na avenida... No famoso “Bumbumpaticumbum Prugurundum”: super escola de samba S.A./ super alegoria/ escondendo gente bamba/ que covardia (Império Serrano - 1982) e em “O samba sambou”: o mestre-sala foi parar em outra escola/ carregado por cartolas do poder de quem dá mais/ e o puxador vendeu seu passe novamente/ quem diria, minha gente/ vejam o que o dinheiro faz/ é fantástico/ virou Hollywood isto aqui/ luzes, câmeras e som/ mil artistas na Sapucaí. (São Clemente - 1990).

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Sambista do asfalto, João Nogueira




Tornou-se poeta após um beijo na boca. E tinha na boca os versos de encantar nossos corações.
João Nogueira, carioca e sambista veio ao mundo no dia 12 de novembro de 1941 e trouxe a beleza com os seus versos e sambas que contam sobre os amores perdidos, sobre os abandonos dilacerantes, cantava as esperanças e as lutas das nossas vidas e declamava o cotidiano que nos engole.
Cronista da alma humana desde menino conviveu com o samba, seu pai João Batista Nogueira fora violonista e tocava junto com o Pixinguinha. João teve seu primeiro compacto gravado em 1972, período também que entrou para a ala dos compositores da Portela.
No final da década de 70, em 1979, criou o “Clube do Samba” com sede em sua própria casa, nesse grupo encontramos grandes nomes dos sambistas e compositores como Martinho da Vila, Clara Nunes, Beth Carvalhos entre muitos.
João se foi no dia 5 de junho de 2000, morreu do coração, deixando naquele peito calado um bocado de verso.

Dia 06/01/2013, primeiro domingo do ano, o Sibipiruna vai homenagear o sambista do asfalto, João Nogueira



Marcílio, meu pai












Depoimento de Douglas  Garzo sobre a música “Espelho”

 Me identifico bastante com a música “Espelho” de João Nogueira, lembro de quando eu era pequeno meu pai tocando o velho violão de cordas de aço, tirava musicas de ouvido e fazia pontiados junto aos amigos que vinham em casa, sempre me imaginava tocando como ele. Infelizmente já não tenho mais meu velho pra tirar o medo e vejo a falta que ele ainda hoje faz, mas sei que ele me vê lá do céu e acredito sim que ele deva ter vaidade e até mesmo orgulho seu filho ser igual ao que ele foi, poeta não sou  mas também tão habituado com o adverso igualmente temo se eu dia me machuca o verso O MEU MEDO MAIOR AINDA É O ESPELHO SE QUEBRAR.
Obrigado João Nogueira  por tão belas palavras que tenho certeza que assim como eu muitos se identificam com tão bela música.