Tornou-se poeta após um
beijo na boca. E tinha na boca os versos de encantar nossos corações.
João Nogueira, carioca e
sambista veio ao mundo no dia 12 de novembro de 1941 e trouxe a beleza com os
seus versos e sambas que contam sobre os amores perdidos, sobre os abandonos
dilacerantes, cantava as esperanças e as lutas das nossas vidas e declamava o
cotidiano que nos engole.
Cronista da alma humana desde
menino conviveu com o samba, seu pai João Batista Nogueira fora violonista e tocava
junto com o Pixinguinha. João teve seu primeiro compacto gravado em 1972,
período também que entrou para a ala dos compositores da Portela.
No final da década de 70,
em 1979, criou o “Clube do Samba” com sede em sua própria casa, nesse grupo
encontramos grandes nomes dos sambistas e compositores como Martinho da Vila,
Clara Nunes, Beth Carvalhos entre muitos.
João se foi no dia 5 de junho de 2000, morreu do coração, deixando
naquele peito calado um bocado de verso.
Dia 06/01/2013, primeiro domingo do ano, o Sibipiruna vai homenagear o sambista do asfalto, João Nogueira
Marcílio, meu pai
Depoimento de Douglas
Garzo sobre a música “Espelho”
Me identifico bastante com a música “Espelho” de João Nogueira,
lembro de quando eu era pequeno meu pai tocando o velho violão de cordas de
aço, tirava musicas de ouvido e fazia pontiados junto aos amigos que vinham em
casa, sempre me imaginava tocando como ele. Infelizmente já não tenho mais meu
velho pra tirar o medo e vejo a falta que ele ainda hoje faz, mas sei que ele
me vê lá do céu e acredito sim que ele deva ter vaidade e até mesmo orgulho seu
filho ser igual ao que ele foi, poeta não sou
mas também tão habituado com o adverso igualmente temo se eu dia me
machuca o verso O MEU MEDO MAIOR AINDA É O ESPELHO SE QUEBRAR.
Obrigado João Nogueira
por tão belas palavras que tenho certeza que assim como eu muitos se
identificam com tão bela música.
Madalena do Jucu é sem dúvida uma das minhas mais remotas memórias musicais. Eu não devia ter cinco anos quando já sabia a letra inteira e passava o dia a cantá-la mais minha irmã, aprendendo que apesar de toda a cagação de regra dos nossos pais, eles passaram pelas mesmas coisas, viveram os mesmos amores e cometeram os mesmo erros que nós viríamos – muitos anos depois – a cometer. Pode soar estranho, mas esse fatalismo era muito confortante e marcou definitivamente o meu modo de sentir e o de pensar. Acho que não seria exagero, mesmo, creditar o meu profundo desacordo com as relações de autoridade a esta potente memória musical que desde então me acompanha.
Ao lado de Vinícius, Chico e Adoniran, Martinho da Vila compõe a santíssima trindade daqueles que partilharam todo o meu processo educacional com a minha família, tanto quanto com os meus amigos e com os meus professores. Foi com eles todos que aprendi a viver as coisas. E cumpre ressaltar que o Martinho sempre foi bastante diferente dos outros três, e é mesmo com muita forçação de barra que se forma essa “trindade”. Mais ou menos aquela forçação de barra com que o povo do além-mar precisou se virar pelas bandas do lado de cá, naquele tal de sincretismo que o Martinho cantou desde sempre com aquele seu jeito desapressado... com aquela cadência lenta... com aquele jeito simples e natural de cantar como se o samba viesse de dentro do coração com toda a sua verdade.
Aquele coro em resposta daquelas moças negras – que depois descobri suas filhas; aquela pimenta toda especial daqueles sambas abaianados; aqueles sambas de roda, de enredo (Sambar na avenida de azul e branco é o nosso papel, mostrando pro povo que o berço do samba é lá em Vila Isabel)... pagodes... aqueles calangos da zona rural fluminense tocados com sanfona e contrabaixo... que não se sabe se é mais samba ou mais baião, mas que é só botar as mãos nas cadeiras e sair dançando... Cagando e andando pros rótulos...
E aqueles sambas de amor, sensuais, viscerais, dilacerantes... que de tanto ouvir já parece que já se viveu.. e que quando se vive parece que já é mais fácil de suportar...
Aquela batucada da umbanda, do candomblé e da macumba com galinha preta e azeite de dendê... Aqueles sinos da igrejinha a fazer belémbléblam.
Toda aquela força da negritude que se afirma do alto da sua pureza, sem revanchismo, com toda a sua verdade e a sua potência que somente na adolescência eu fui descobrir em bambas do calibre de Zé Keti, Luis Carlos da(s) Vila(s) e toda a gente da Quilombo comandada pela altivez do Mestre Candeia.
Aquele modo tão simples e tão forte. Aquela Pretinhosidade – pra ficar tudo em casa de bamba mais uma vez.
O primeiro sambista a cravar um milhão de cópias – ainda por cima num disco feito todo de improviso... Na época eu conhecia apenas uma cópia de cassete que o Tio Mário – muito antes de me levar ao Canecão cantar junto com o Martinho – gravara para o meu pai. Provavelmente sem saber o quanto tudo isso viria a nos aproximar bem mais no futuro.
Não pretendo me estender sobre aquela sacanagem toda de que o Martinho é um vendido porque supostamente comercial de tão tocado. Vou reproduzir noutro poste um artigo do Cabral para o Pasquim no qual ele fala tudo o que eu tenho a falar sobre essa gente babaca que não critica a desigualdade nem os pressupostos de uma sociedade a cada dia mais desigual e mais babaca, mas que olha com olhos de desprezo qualquer ascensão social de qualquer preto.
Dizem que eu sou um burguês muito privilegiado...mas burgueses são vocês... eu não passo de um pobre coitado, mas quem quiser ser como eu vai ter é que penar um bocado.
Pra voltar ao que é gostoso, ao que o samba é na sua forma mais porreta, naquele ensinamento coletivo que educa porque partilha e que comunga porque caleja... Nunca é demais lembrar o grande ensinamento que o mestre cantou menos do que viveu: É devagar, é devagar, é devagar é devagar devagarinho... Devagarinho é que a gente chega lá, se você não acredita você pode tropeçar.
E termino cá com as risadas compulsivas das minhas filhas toda vez que eu canto essa pequena fábula em que o dedão xinga o cara... lição de vida.
Como aprendi com papai, na minha casa, todo mundo é bamba, todo mundo bebe, todo mundo samba.
Viva o samba e viva a batucada que sempre será dessa gente de cor e de quem mais souber chegar.
E viva a criançada porque o tal do samba fica muito mais bunito na rua do que em qualquer museu.
"Canta Canta, minha Gente
Deixa a tristeza pra lá.
Canta forte, canta alto,
Que a vida vai melhorar.
Que a vida vai melhorar"
No Dia Nacional do Samba (02/12/2012) o Projeto de Samba Sipipiruna terá o orgulho de homenagear este grande baluarte do samba, Martinho da Vila, a partir das 15 horas, no Bar Esquina 108.
Novembro de 1999. Há treze anos, despedia-se do palco da vida Zé Keti da Portela. Autor de clássicos da música popular brasileira, como A Voz do Morro ("Eu sou o Samba/ a voz do morro sou eu mesmo, sim senhor"), Máscara Negra ("Quanto riso, ó, quanta alegria/ mais de mil palhaços no salão"), dentre inúmeros outros, ingressou na Ala de Compositores da Portela na década de 1940, conquistando grande respeito e admiração. Apesar do estrelato, era alheio à própria fama, graças ao jeito recatado, quase tímido, que desde a infância lhe rendera o apelido - "zé quieto", "zé quietinho", não era muito chegado a exibicionismos e vaidade excessiva.
Ligado às questões sociais, como se percebe em Acender as Velas ("O doutor chegou tarde demais/ porque, no morro,/ não tem automóvel pra subir,/ não tem telefone pra chamar/ e não tem beleza pra se ver/ e a gente morre sem querer morrer"), 400 anos de favela ("barracão de zinco perfurado/ quando chove, durmo no molhado") ou ainda a subversiva Opinião ("podem me prender, podem me bater,/ podem até deixar-me sem comer"), cujo título batizou um espetáculo de grande repercussão, recém instaurada a ditadura militar de 1964.
Lembro-me da notícia sobre seu falecimento, um coro de muitas pessoas cantando músicas de sua autoria, numa despedida muito emocionante. O coro, desta vez, é por nossa conta: No dia 04/11/12, o Projeto de Samba Sibipiruna fará homenagem a Zé Keti da Portela. Venha somar, a partir das 15h, na Rua Julia Leite de Barros, 108, Barão Geraldo, Campinas. Quem está pedindo é a voz do povo de um país.
Foto de fundação do Projeto de Samba Sibipiruna; Outubro de 2011
Dezembro de 2011, Foto: Karina Kaká
O samba é meu dom...
Num domingo ensolarado à sombra da Sibipiruna, bambas
sedentos ousaram levar os seus instrumentos e desfrutar do samba.... e a sede é
tanta, que então, na companhia dessa mesma sombra, nasce o Projeto de Samba Sibipiruna.
Encontro mensal que vem crescendo e unindo sambistas assim
como a árvore Sibipiruna cresce e nos presenteia com a suas folhas, flores,
cores e sombra; uma roda que reúne felicidade, amores, amizades e muito samba
com compositores, com homenageados – bambas que fizeram do samba a sua morada –
e a grande roda de samba.
Um ano de couro comendo na batucada passou pelo repique do
tamborim e estamos juntos a comemorar essa deliciosa roda que nos une e a
homenagear os compositores que floriram os encontros com os seus sambas.
Quem imaginaria que aquele garoto, nascido no bairro de Botafogo,
no meio de músicos, sambistas e chorões, se tornaria o maior porta-voz do samba
tradicional e da velha guarda? Quem diria que aquele cavaquinista e violonista
seria considerado um dos compositores mais completos de todos tempos, criando
antológicos sambas (do dolente ao partido alto, do romântico à representação do
cotidiano), e choros melancolicamente profundos?
Paulinho da Viola não necessita de apresentação. Estabelecendo
um elo constante entre o passado o presente em suas músicas e álbuns, Paulinho
conseguiu apresentar composições relativamente modernas, sem romper com a essência
do samba. Por meio dele, as Velhas Guardas (não apenas a da Portela) passaram a
ser mais consideradas e respeitadas, seja via incorporação das músicas, seja via
estímulo à constituição de alas e grupos de apresentação.
Com uma obra vasta e extensa, Paulinho da Viola é unanimidade
em todos os segmentos do samba, chegando a um patamar comparável ao de Cartola
e Candeia. E por todos estes motivos, a nossa Sibipiruna terá o prazer de
homenageá-lo, cantando seus sambas antológicos!
Sejam todos bem vindos: dia 02/09; a partir das 15 horas, no
Bar Esquina 108 (Rua Julia Leite de Barros, 108, Barão Geraldo - Campinas)
Falar de Noël de Medeiros Rosa (11/12/1910 – 4/5/1937) é quase chover no molhado. Compositor, cantor, violonista e boêmio profissional, assim foi Noel. Nascido em Vila Isabel, numa família de classe média baixa cujo sonho era vê-lo doutor em medicina... ele bem que tentou, mas o chamado da música foi mais forte, para nossa sorte. Noel Rosa revolucionou a letra da música brasileira, contando, como poucos, a cidade em transformação e as figuras populares. A revolução refletiu também na música, influenciada pelo batuque que vinha dos morros e dos subúrbios cariocas, da turma do Estácio, do Deixa Falar.
Grande cronista, admirado e celebrado desde a década de 1930 até os dias atuais. Autor de marchas, foxes, emboladas, valsas, foi no Samba que Noel se destacou. De sua primeira gravação aos 19 anos, até a derradeira antes dos 27 anos completos. Adeus é pra que deixa a vida, e o grande artista se foi, levado pela tuberculose, com choro, vela e fita amarela.
No dia 05/08, nossa roda de Samba fará homenagem a esse Sambista de valor inestimável, que revolucionou a letra, a música e a maneira de se fazer e de se cantar Samba. Contava Nássara, amigo pessoal, que certa vez encontrara Noel envolto por garrafas de cerveja e cálices de conhaque: “ – você está maluco, Noel? Doente e bebendo desse jeito?”. Ao que o boêmio respondeu: “ – Sabe o que é Nassara? Me disseram que cerveja alimenta. Como não sei comer sem beber, estou tomando um conhaquezinho pra acompanhar”.
José Bezerra
da Silva, nascido em fevereiro de 1927,
é considerado o maior nome de uma modalidade de samba muito especial. O Samba “suburbano”,
se é que exista um samba não suburbano.
Mas o fato é
que Bezerra da Silva foi o intérprete que melhor cantou os problemas de seu
povo, o cotidiano da periferia, os problemas dos excluídos e marginalizados com
a opressão e repressão (polícia e política). Assim, Bezerra é porta-voz de uma
gama de compositores desconhecidos, suburbanos e talentosos.
Sua voz
malandreada, seu jeito nordestino de cantar (visto que é oriundo de Recife –
PE), e suas músicas que rondam à margem da contravenção, da ironia do cotidiana
e das contradições vividas pelo seu povo, têm a capacidade de fazer cantar e dançar
jovens, senhores e adultos.
Por todos
estes motivos, Bezerra da Silva é considerado o embaixador dos morros e
favelas, instrumentalizando sua voz, suas canções para denunciar os problemas
de um país desigual e injusto.
Assim, nossa
querida Sibipiruna tem o maior prazer de cantar e homenagear o “bom
malandro”. O Convite está feito: 01/07/2012, a partir das 15 horas.